segunda-feira, outubro 02, 2006

Gostava imenso de partilhar esta sensação com toda a gente:
Estou em Caldelas e está a chover a cântaros. A sensação de paz é que não consigo descrever.
O dia está frio e cinzento
O vento bate nas árvores fazendo um ruído aterrador, mas ao mesmo tempo bom para a alma.
Os pinheiros abanam-se de um lado para o outro bufando um barulho estridente, apavorante mas agradável
Aqui e ali vêm-se fogueiras a ardendo de restos de milho que os agricultores desta pequena aldeia perdida no Minho fazem para arejar os terrenos.
Passa um carro de bois carregado de sacos para o moinho. Desce lentamente a estrada, um velho caminho de cabras usado pelos locais para acesso ás pequenas propriedades abaixo de minha casa, cujo acesso apenas se pode fazer neste meio de transporte ou num veiculo todo terreno.
À sua frente vai um velho de cajado na mão, meio curvado, barba por fazer, cigarro no canto da boca e com um plástico verde na cabeça a puxar duas vacas castanhas com uns grandes cornos.
Um miúdo em cima do carro completamente encharcado a segurar as sacas do milho.
Olha para cima e cumprimenta-me; retribuo o gesto com um acenar da mão, mais á frente num outro campo que avisto de minha casa, uma vinha em ramada alta e uns homens dependurados nuns escadotes de madeira a cortarem as uvas para uns cestos pretos de plástico, adiante um tractor cor de laranja parado junto a um ribeiro, está um homem encostado a fumar enquanto aguarda os seus companheiros a despejarem esses cestos para dentro de uma dorna de madeira em cima do atrelado.
Aqui e ali ouvem-se vozes a berrarem pelos Zés, Manueis, Joaquins, Marias.
É o período das vindimas. Cheira a erva molhada
No meio desta algazarra do campo há silêncio, consigo ouvir a brasa do meu cigarro a queimar.
O tempo está cinzento.
Estou numa grande varanda a fumar um cigarro envolvido numa manta, sentado numa sofá de salgueiro, pensando vagamente sobre nada de especial, e ao mesmo tempo apenas a pensar em prazeres como o prazer de estar ali sentado a fumar um cigarro a observar o que se passava à minha volta mas fundamentalmente estar a ouvir aquela tranquilidade
Passa uma mota de longe a longe, chegado á rampa e indo abaixo, fazendo um alarido insuportável para os ouvidos que se habituaram á calmaria do campo.
Cai um temporal por cima das outras casas. Chove, ao mesmo tempo que por cima do monte se avistam relâmpagos. E tu na estrada. Começo a sentir um aperto no peito.
Começa a trovejar e a chuva cada vez mais cai com intensidade.
Sorvo uma absorta caneca de café quente enquanto me deleito com este bem estar em que estou neste momento. Um bem estar de alma, de consciência e ao mesmo tempo físico.

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