quarta-feira, abril 11, 2007

São três da manhã e eu em claro, apático, com um grau de perturbação mental bastante superior áquele que devia.
Exagerado? Não.
Depois de um café bebido á pressa, com uma amiga, depois de uma breve conversa, depois de mais uma escapadela fora de horas...só me apetece abraça-la.
Assustado? talvez.

Este conto é teu, nosso, de nós os dois:

Porque chamo a este conto Nilo?
Porque Nilo é um nome de um rio. Um rio carregado de histórias, de tradições de um povo evoluído, de um canto caloroso deste mundo, cheio de sofrimento. Mas este rio, corre calmamente para uma foz e transmite algo que muitas pessoas procuram, mas poucas conseguem ter. Paz. Interior, Paz, exterior, Paz material.
Comecei a escrevê-lo calmamente, mas sem um final condigno de uma paz, que nem sei muito bem como caracteriza-la. Uma paz calma doce e terna.

O dia começou frio e cinzento
O vento batia nas árvores fazendo um ruído aterrador, mas ao mesmo tempo bom para a energia.
Os pinheiros abanavam de um lado para o outro, bufando um barulho estridente, apavorante mas agradável.
Aqui e ali viam-se fogueiras a ardendo de restos de milho que os agricultores desta pequena aldeia perdida no Minho faziam para arejar os terrenos.
Passa um carro de bois carregado de sacos para o moinho. Desce lentamente a estrada, usando o ruído do metal das rodas, batendo no alcatrão. À sua frente vai um velho de cajado na mão, meio curvado, barba por fazer, cigarro no canto da boca e com um plástico verde na cabeça a puxar duas vacas barrosãs.
Um miúdo em cima do carro completamente encharcado a segurar as sacas do milho.
Olha para cima e cumprimenta-me; retribuo o gesto com um acenar da mão.
Mais á frente, num outro campo que se defrontava com uma velha nogueira e com o meu lugar preferido lá da quinta, uma vinha em ramada alta e uns homens dependurados numas escadas de madeira a cortarem as uvas para uns cestos pretos de plástico, adiante, num tractor cor de laranja parado junto ao ribeiro, estava um homem encostado a fumar enquanto aguardava os seus companheiros a despejarem esses cestos para dentro de uma dorna de madeira em cima do atrelado.
Aqui e ali ouvem-se vozes a berrarem pelos Zés, Manueis, Joaquins, Marias.
É o período das vindimas. Cheira a erva molhada
No meio desta algazarra do campo há silêncio, consigo ouvir a brasa do meu cigarro a queimar.
A casa está fria. Tento aquece-la com os convectores e com o borralho da lareira para que tu quando chegues tenhas conforto.
O tempo está cinzento.
Estou numa grande varanda a fumar um cigarro envolvido numa manta, sentado numa sofá de salgueiro, pensando vagamente sobre nada de especial, e ao mesmo tempo apenas a pensar em prazeres como o prazer de estar ali sentado a fumar um cigarro a descobrir o que se passava à minha volta mas fundamentalmente estar a entender aquela tranquilidade
Passa uma mota de longe a longe, chegado á rampa e indo abaixo, fazendo um alarido insuportável para os ouvidos que se habituaram á calmaria do campo.
Cai um temporal por cima das outras casas. Chove, ao mesmo tempo, que por cima do monte se avistam relâmpagos. E tu na estrada. Começo a sentir um aperto no peito.
Começa a trovejar e a chuva cada vez mais cai com intensidade.
Ouço musica clássica numa pequena aparelhagem da sala para descontrair, levanto-me para ir buscar um vermute com duas pedras de gelo e uma rodela de limão. Acendo mais um cigarro

Levanto-me, maquinalmente, ao mesmo tempo, para reacender a lareira e poder estar a escrever o meu livro a minha história estar no meu mundo nos meus pensamentos a sonhar um pouco mas ao mesmo tempo a aproveitar todos os minutos todos os segundos antes que tu chegues para nos entregarmos a algo mais.
Sorvo agora uma absorta caneca de café quente enquanto me deleito com este bem estar em que estou neste momento. Um bem estar de alma, de consciência e ao mesmo tempo físico.
A cozinha está fria a casa está viva, aquecimentos ligados para ter conforto, mas aquela cozinha está fria, desconfortável.
A chuva cai cada vez com mais vigor, por vezes virando a pequenos cálculos de granizo e causa um ruído estridente mas aprazível.
Vou à janela admirar o horizonte; uma mistura de vários tons de cinza, podendo –se ver por cima da vila um arco-íris.
As arvores em frente aos meus aposentos, nogueiras, castanheiros, oliveiras, cedros, tinham sido vitimas das agruras desta estação. Tinham nas suas folhas, um azo amarelado, acastanhado, salpicado ainda por alguns pontos verdes.
Estamos em Outubro numa manhã plena de Outono
Ponho o labor de parte para poder descansar mais, e mais um pouco. Espero que chegues ansiosamente

Tempos depois, levanto-me e vou caminhar pelo lugar.
Calço umas botas, visto uns jeans e uma camisola vermelha de flanela.
Largo de casa e bato o portão com violência.
O cão faz festa e acompanha.
Além de companheiro de viagens, era uma companhia em noites de solidão dos meus tempos de solteiro. Ouvinte em noites de boémia.

O aguaceiro continua a cair com intensidade.
Está frio.
Sinto-me perdido no meio dos pensamentos.
Estou de cachimbo na boca a roer a boquilha, enquanto subo a estrada até a um grande largo onde culmina numas arcadas de uma casa senhorial de outros tempos. Passo por um homem alto, com um impermeável amarelo e de enxada ás costas. Saúda-me com um olá vago. Retribuo da mesma forma.. Olho para trás, já não existe nenhum vestígio do homem. Vai ficando a fumaça do cachimbo, espraiando o aroma do tabaco. Do cimo da estrada avisto um palacete antigo abandonado.
Toda a vegetação em seu redor tinha desaparecido, causando uma vista sobre o vale deveras imenso.
Sento-me numa pedra a contemplar a paisagem. O cão, esse, senta-se ao meu lado e apoia o focinho na minha perna.
Passa uma senhora com o cabelo molhado, que conheço de lá do lugar. Pára e fica a olhar para mim. Saúda-me de um modo estranho como que na duvida e pergunta-me quem sou. A minha resposta é a que ela quer ouvir. Pergunta-me pelos meus e vai-se.
Volto a sentar. Estou com as calças com lama.
Dou a volta e regresso ao aconchego de um lar abochornado.
Apanho um toro de pinheiro para me apoiar tentando a todo custo entrar no espirito desta terra. Mas não consigo. Ainda estou debaixo da ansiedade, do reboliço da invicta. Tento a todo custo relaxar de todas as formas e mais algumas, mas não consigo.
Continua a cheirar a queimado, mas com menos actividade.
Subo um caminho de cabras enlameado, caminho que costumava calcorrear em criança, nas brincadeiras típicas de um miúdo de 4 anos. Agora subo a custo. Vou metódico lembrando-me dos meus tempos de criança e das férias que ali passava na companhia dos meus pais e dos meus primos. Das brincadeiras que fazíamos. Das partidas que pregávamos á minha avó enquanto novos. Da primeira namorada. Ali daquela aldeia. Do meu primeiro beijo debaixo daquela tangerineira mesmo ao lado da sequeira da quinta.
A quinta. Entregue a um tio.
Vou contemplando, relembrando. Do caminho de cabras passo agora para um piso em calçada mesmo por cima de um terreno pertença da junta.
Toca o celular. Estás a chegar.
Bato novamente os portões e apanho um ramo de esterilizias de um canteiro para pôr numa jarra.
Em instantes, por outra entrada, uma buzina. O cão tem a cauda a chicote. És tu.

A empregada aparece para ir receber o ordenado.
Esta gente, mal sabe o que é um banco. A facilidade da cidade e do meio que nos rodeia. Transferências bancárias, controlo da vinha, adubos por Internet. Mas ali, tudo á moda antiga, manualmente.
Esta gente, apenas sabe o que é dinheiro vivo para a manutenção da casa. Neste caso, para manter um agregado com cinco filhos e um marido acamado por causa de um acidente de trabalho numa carpintaria de Goães. Gente pobre e humilde mas de bom coração.
Fica por lá mais um pouco á conversa.
Peço-lhe que se afiance um pouco e que nos arranje alguma coisa para comer. Estamos cansados da viagem e sem vontade de lidas domésticas.
Com uns grelhados e o pouco que ainda tinha no congelador, prepara-nos um almoço perfeito para um dia perfeito na tua companhia.
Agradeço-lhe e vou á adega buscar um vinho para nós e azeite para ela.
Sentamo-nos a devorar tão belo repasto, na varanda, com a chuva a cair com intensidade.
Depois os cafés e finalmente o Porto.
Sentamo-nos no sofá.
Encostas-te a mim.
O tempo, esse, piorava a cada minuto que passava. Cada vez chovia mais. E mais ainda.
Nós, estamos sentados numa varanda coberta, com um aquecedor de exterior a beber um Porto fresco. Apenas eu e tu sem dizermos uma palavra. Apenas nós os dois sem nenhum sentimento, sem se ouvir nada. A ouvirmos um silêncio descontente típico do campo.
Apenas nós os dois naquele sofá com o cão á nossa beira, de olhos bem abertos, completamente despertos, fitando a paisagem, pensando vagamente no pequenino que somos em relação á mãe Natureza. Tão minúsculos, face ao vento e á chuva que a cada passo cai com mais intensidade.
Não nos movemos. O cigarro ia queimando no cinzeiro. Estávamos ali.
Passa o tractor para baixo. No atrelado iam uns homens para a vinha de ramada alta, na leira uns quarteirões mais abaixo. Aquele tractor cor de laranja que estava parado de manhã no campo.
Recomeçam as vindimas.
As vozes que de manhã ecoavam pelo monte fora, arrastavam-se agora mais animadamente, por força do álcool ingerido numa refeição deveras farta e retemperada. Ora se ouviam berros fartos e grossos a chamarem pelos Manueis e Joaquins daquele lugar, ora risos e brincadeiras típicas de um povoado farto de tradições.
Passa uma anciã com um rebanho de ovelhas para cima. Senhora forte, de avental pela cintura, cabelo grisalho e com dois dentes pela frente. Olha para a varanda e cumprimenta-me com um “olá menino bem disposto”. Pára. Quer conversa. Tu levantas-te e ela vê-te. Remata uma conversa que nunca chegou a existir com um “desculpe, não sabia que o menino estava acompanhado” e despede-se.
Tocam o sino da quinta. O cão ladra nervoso. Vou ver quem é.
Senhora Custódia, uma senhora do lugar a pedir couves em troca de ovos. Era o caseiro quem faria este serviço. Mas hoje estamos lá nós. Abro a porta e ela estranha. Cumprimenta-me com um grande e farto abraço. Chora por me rever e remata com o seu pedido.
Mais uma mulher com o semblante carregado pelas intempéries do campo e pelo passar dos anos ali metida naquela aldeia perdida no Minho.
Traz um laço vermelho na cabeça, galochas verdes e uma foice na mão esquerda. Cara meia enquinada, com um grande sinal por cima do lábio e com bucho negro. Senhora simpática. Conhece-me desde dos tempos de petiz. Uma história de vida algo conturbada , histórias do campo, um pouco atribulada, de gente humilde que dão aquilo que tem e por vezes o que não tem, apenas para tentar agradar os forasteiros. Neste caso, levado bem á regra. O dinheiro pouco valor tem. Os bens de primeira necessidade não existem. Gente que usa a agricultura numa economia de subsistência usando os frutos da terra como a moeda de troca.
Volto a sentar-me no sofá.
Apenas se ouve o barulho da foice a cortar as couves pelos pés. Tu levantas-te para reforçar a lareira com mais um toro.
A casa está devidamente quente.
Mantemo-nos mudos a olhar em frente sem dizer uma palavra. Soltas um suspiro e manténs a cabeça no meu ombro.
Vagarosamente ergues-te e olhas para mim. Queres pegar num livro mas não tens vontade.
Olho para ti. Os teus olhos, são castanhos escuros. Dás-me um beijo na face. Soltas um sorriso e abraças-me. Tonta.
Um sentimento forte apodera-se.
Uma fria tarde de Outono transformou-se de repente numa quente tarde de Verão. Lasciva. Poética.
O nosso sossego é interrompido pelo ladrar do cão. Quer correr pela quinta.
Levantas-te e vais-lhe abrir a porta.
As ideias em catadupa urgem na minha cabeça para mais uma vez te surpreender com algo, para te conseguir conquistar de uma só vez, num amor arrebatador. Espero eu. Assim o quero.
Vens para a minha beira
Sem vontade fazer o que seja, vou á cozinha preparar o jantar enquanto te arranjas. Não me apetece cozinhar e pelo celular marco uma mesa para dois no restaurante do hotel lá da vila.
No mesmo telefonema aproveito para pedir um “favor” a um amigo de lá.
Exponho-lhe a minha ideia e ele acede. Em poucos minutos aparece para vir buscar as chaves. À socapa.
Calado como um larápio entro para o carro e vamos jantar. Demoramo-nos no interior do hotel a passear. Levas a maquina fotográfica para memorizares os tectos do salão nobre.
Entramos na quinta tarde. Depois do sinal do meu amigo.
No quarto cálido por força dos convectores, tens um ramo de flores secas em cima da almofada.
O quarto de banho está ás escuras, apenas com velas vermelhas espalhadas pelo espaço e um sem numero de pétalas de rosas na banheira cheia de água.
Um misto de sensações se apoderou sobre nós.
Troveja e cai granizo. Sentados de frente, apenas com os corpos despidos de roupa, confessas aquele momento exótico que alguma vez tenhas tido.

No dia seguinte acordamos tarde.
Levo-te o pequeno almoço á cama.
Vestes umas calças de ganga, mocassins castanhos e uma camisola de gola também castanha e uma echarpe azul por cima.
Vamos novamente á vila, agora para te dar a conhecer os local onde tinha passado grande parte da minha infância.
A igreja de Santiago, a capela da Nossa Senhora da Saúde, as termas, o café ainda existente, onde comprava as chicletes e onde comprei também o meu primeiro maço de tabaco á socapa dos meus pais. Ainda conversamos, desfrutamos e caçoamos com o proprietário do café que me conhecera assim que lá entrei. Delongamo-nos no meio do arvoredo. As mercearias ainda com alguns aquistas de passagem por ali. A época das termas ainda não terminara, justificando assim o movimento normal daquela vila.
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