
Aparição
-Temos de ir vestir o nosso pai-disse o Tomás.Senti um arrepio na ameaça do contacto com a carne morta. Mas reagi.Que mãos profanas para te tocarem, meu velho? Que outras mãos senão estas de piedade, de um coração despedaçado? Sofro. Vou até ao quarto onde o meu pai dorme....Então bruscamente ataca-me todo o corpo, as vísceras, a garganta, o absurdo negro, o absurdo córneo, a estúpida inverosimilhança da morte. Como é possível? Onde a realidade profunda da tua pessoa, meu velho? Onde, não os teus olhos, mas o teu olhar?, não a tua boca, mas o espírito que a vivia?Onde, não os teus pés ou as tuas mãos mas aquilo que eras, tu e se exprimia aí? Vejo, vejo, céus, eu vejo aquilo que te habitava e eras tu e sei que isso não era nada, que era um puro arranjo de nervos, carne e ossos agora a apodrecerem. Mas o que me estrangula de pânico, me sufoca de vertigem , é teres sido vivo, é tu estares ainda todo uno para mim, na memória do teu riso, no tom da tua voz, que era lenta, sossegada, nas ideias que punhas a viver entre nós, na verdade fulgurante de seres uma pessoa. Recordo-te totalizado, olho-te. Que é que te habita, que é que está em ti e és tu? Não, não é a carne, não não é o corpo: é aquilo que lá mora, aquilo que ainda dura de ti nestas salas, neste ar, aquilo que eras tu, o teu modo único de ser, aquilo a que nós falávamos, atravessando a tua parte visível. E, no entanto, sei, sei que esse tu real que te habitava não era senão a sua morada; como o espaço de uma casa, a intimidade do home, são as paredes que o fazem: derrubada a casa, a intinidade que lá havia também morre...
-Temos de ir vestir o nosso pai-disse o Tomás.Senti um arrepio na ameaça do contacto com a carne morta. Mas reagi.Que mãos profanas para te tocarem, meu velho? Que outras mãos senão estas de piedade, de um coração despedaçado? Sofro. Vou até ao quarto onde o meu pai dorme....Então bruscamente ataca-me todo o corpo, as vísceras, a garganta, o absurdo negro, o absurdo córneo, a estúpida inverosimilhança da morte. Como é possível? Onde a realidade profunda da tua pessoa, meu velho? Onde, não os teus olhos, mas o teu olhar?, não a tua boca, mas o espírito que a vivia?Onde, não os teus pés ou as tuas mãos mas aquilo que eras, tu e se exprimia aí? Vejo, vejo, céus, eu vejo aquilo que te habitava e eras tu e sei que isso não era nada, que era um puro arranjo de nervos, carne e ossos agora a apodrecerem. Mas o que me estrangula de pânico, me sufoca de vertigem , é teres sido vivo, é tu estares ainda todo uno para mim, na memória do teu riso, no tom da tua voz, que era lenta, sossegada, nas ideias que punhas a viver entre nós, na verdade fulgurante de seres uma pessoa. Recordo-te totalizado, olho-te. Que é que te habita, que é que está em ti e és tu? Não, não é a carne, não não é o corpo: é aquilo que lá mora, aquilo que ainda dura de ti nestas salas, neste ar, aquilo que eras tu, o teu modo único de ser, aquilo a que nós falávamos, atravessando a tua parte visível. E, no entanto, sei, sei que esse tu real que te habitava não era senão a sua morada; como o espaço de uma casa, a intimidade do home, são as paredes que o fazem: derrubada a casa, a intinidade que lá havia também morre...
Vergílio Ferreira em Aparição
4 comentários:
Estou sem palavras.
Muito sangue frio para quem está a passar por uma fase menos boa.
Sinclair estou aqui.
Morbido, cena brutal, carregada de significado.
Sinclair, és mesmo especial.
Sem comentários.
Sangue frio e muita força.
Esta parte do livro é cheia de insignificâncias.
dos ciclos...
beijO
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