quarta-feira, maio 02, 2007


de profundis amamus

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentada
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas saias
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

Mário Cesariny

2 comentários:

un dress disse...

ontem este poema atravessou-me o a

língua e o caminho.




hoje está...aqui!!! :)

Unknown disse...

pelos vistos este poema atravessa o caminho de muita gente :P

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